Na sexta-feira à tarde, a professora trouxe uma caixa grande e a colocou bem no meio da sala de aula. Ninguém sabia o que havia dentro dela.
Embora a caixa estivesse fechada com fita adesiva, estava tão cheia que ficava um pouquinho aberta. Alguém a tinha trazido do sótão de uma casa antiga, e dava para ver que a fita já estava se esforçando para segurar tudo no lugar. Provavelmente, aquela caixa já estava lá havia bastante tempo.

“Preciso de ajudantes. Alguém me ajuda a tirar o pó?”, disse a professora.
Ninguém estava com muita vontade de chegar perto, e quem poderia culpá-los? Mas, quando a professora abriu a caixa e tirou o primeiro livro, as crianças prestaram atenção. O livro era antigo, mas belíssimo. Estava bastante empoeirado, mas ainda dava para ver claramente as letras douradas na capa.
A partir daquele momento, todos quiseram participar. Quem sabe que outros tesouros haveria ali dentro? As crianças se sentaram ao redor da mesa e começaram a tirar os livros, um por um.
Estavam empoeirados, alguns tinham os cantos dobrados e, dentro de um deles, havia um trevo de quatro folhas prensado. Alguém deve tê-lo escondido ali, muito tempo atrás, para dar sorte.
Elisa pegou um paninho e começou a limpar os livros. Aos poucos, os outros também se juntaram. Logo todos estavam com as mãos empoeiradas, e sobre a mesa crescia uma pilha de livros que, uma hora antes, não interessavam a ninguém.
Agora, porém, todos espiavam curiosos para descobrir sobre o que eram aquelas histórias. E quanto mais livros eles tiravam da caixa, mais animada ficava a roda em volta da mesa.
Tomás encontrou um livro sobre o espaço, com desenhos de planetas ocupando páginas inteiras, que pareciam ter sido pintados à mão. Adélia descobriu contos de fadas dos quais nunca tinha ouvido falar, com ilustrações cheias de criaturas estranhas.
Já Gabriel segurava na mão um livro de detetive em que, na primeira página, alguém havia escrito a lápis: “Cuidado com o jardineiro!” e nada mais.
“Por que logo o jardineiro?”, perguntou ele em voz alta.
Ninguém sabia. Mas todos queriam descobrir o que aquele jardineiro tinha feito.
Eles passaram quase uma hora separando os livros. Então a professora disse que cada um poderia levar um para casa. As crianças ficaram animadíssimas e começaram a escolher.
Gabriel pegou o livro de detetive, pois queria ser o primeiro a descobrir o que o jardineiro tinha feito. Adélia já tinha escolhido há tempos um livrinho de contos de fadas. Tomás ficou tanto tempo indeciso entre o livro sobre o espaço e outro sobre o mundo submarino que a professora lhe disse para levar os dois.
Os livros restantes foram colocados em uma pequena prateleira da sala, para que as crianças pudessem pegá-los aos poucos.
Na segunda-feira de manhã, depois do fim de semana, as crianças se encontraram de novo na escola, e ainda antes de o sinal tocar, começaram a contar umas às outras, o que tinham lido durante o fim de semana.
Adélia havia lido três contos de fadas e contou que um deles era sobre um homem d’água que tinha medo de água. Tomás chegou com um livro sobre o espaço na mochila e dizia que Saturno tem anéis feitos principalmente de gelo.
Só Gabriel fazia mistério e não queria contar a ninguém quem era aquele jardineiro. Era para não estragar a surpresa para os outros. Mas, segundo ele, a história valia muito a pena.
A professora ouviu tudo da porta e não disse nada. Apenas sorriu, contente por ver que aquelas crianças tinham descoberto o prazer de ler.
